E como os brados no Mundo podem tanto, bem é que
bradem alguma vez os pregadores, bem é que gritem
Pe. Antonio Vieira

domingo, 28 de dezembro de 2014

Domingueira - 229 policiais assassinados em dez meses, a agenda de Temer, Biden, Ramos ou Os tiros que ferem a alma

A foto que ilustra esta postagem registra a presença de alguns milhares de policiais americanos ao enterro de um colega de farda, Rafael Ramos, 40 anos, assassinado no dia 20 deste mês. Ramos morreu ao lado do também policial Wenjian Liu, de 32 anos. O autor do duplo homicídio foi Isamaaiyl Brinsley, que cometeu suicídio e deixou registrado na internet que o crime era  vingança contra a polícia por causa da morte recente de Michael Brown e Eric Garner - dois negros mortos recentemente por policiais. Joe Biden, vice-presidente dos EUA, e Bill de Blasio, prefeito de Nova York, participaram da cerimônia que aconteceu ontem (27).
Biden disse que "quando a bala do assassino alvejou dois policiais, ela atingiu a cidade e tocou a alma de uma nação inteira".
Mas, isso tudo com certeza você já sabe.
O que talvez você não saiba é que, no Brasil, um policial é assassinado a cada 30 horas. Isso segundo dados oficiais - que, como se sabe, não merecem muita credibilidade abaixo do equador. Rio de Janeiro e Maranhão, por algum estranho motivo, não conseguiram contabilizar seus policiais mortos.
Os números disponíveis mostram que, até outubro deste ano, foram assassinados 229 policiais.
São Paulo lidera o ranking macabro com 98 mortes de policiais.
Em segundo lugar - por que não estou surpreso? - aparecem o Pará e a Bahia, empatados com 16 cruzes.
No Pará, a Associação de Cabos e Soldados contesta os números do governo tucano de Simão Jatene. Diz que foram 38 os policiais assassinados no estado em 2014.
Dias atrás, após a morte de um colega, policiais paraenses realizaram uma das maiores chacinas que se tem notícia no estado. Dez foram mortos em menos de 24 horas. Quem eram os mortos? Ora, lembrando o inspetor Renault, de "Casablanca", os "suspeitos de sempre".
Agora, a PM paraense está em plena efervescência por conta da escolha de seu comandante. Dependendo de quem seja escolhido por Jatene, o novo comandante corre o risco de ser solenemente ignorado por seus subordinados.
Qual a esperança que o cidadão comum pode ter que a situação de total insegurança possa, um dia, mudar para melhor?
Quem cravou "nenhuma" ganhou um palito de picolé!
Mas este é, digamos assim, o fotograma do Pará. Cada estado, com certeza, tem seus próprios problemas e defeitos que acabam por determinar a falência do sistema de segurança pública no Brasil.
No Rio de Janeiro, comandantes acertam com os "líderes da comunidade" data e hora para suas operações nas favelas, mesmo naquelas ditas "pacificadas".
Em Vitória e Salvador, PMs vão à paisana aos batalhões. Alegam que circular uniformizados sozinhos é "extremamente perigoso". E por aí vai o rosário de nossas dores.
Um traço acaba por unir quase todos os estados: salários defasados e forças policiais desaparelhadas, a desculpa perfeita a justificar os "bicos" como segurança durante as folgas ou a formação das tais "milícias", gangues formadas por marginais uniformizados e seus aderentes, com o objetivo de extorquir, roubar e matar.
A cada assassinato, um pequeno cortejo, seguido por uma explosão de violência e barbárie policial e... nada mais. Apenas aguardar o próximo assassinato. É assim que reagimos ao estado de guerra que tomou conta das ruas de praticamente todas as cidades do País.
Infelizmente, não parece haver disposição para enfrentar o problema de frente. Extinção ou desmilitarização das PMs, controle do Judiciário ou do MP sobre a Polícia Civil, implantação da Polícia de Fronteiras com caráter federal, ampliação das atribuições da Força Nacional, redução da maioridade penal, todos esses temas são tabus, enquanto os cadáveres se acumulam e inflam as estatísticas da violência.
Assim, o que resta ao contribuinte extorquido pela maior carga tributária do planeta é rezar para que 2015 seja, pelo menos, igual a 2014, mesmo sabendo que piorar é a opção mais plausível.
PS: A Agenda de Temer
E agora entra em cena Michel Temer.
Olhando rapidamente a agenda de Temer, vejo que nos últimos dias  o vice-presidente brasileiro deu palestra para empresários, foi diplomado para mais um mandato pelo TSE, esteve no México (talvez para compartilhar a experiência brasileira no combate à criminalidade. Quem sabe?) e, oh Deus, participou da inauguração do instituto do "craque cai-cai" Neymar.
Temer poderia imitar Biden e manter sua agenda mais movimentada participando dos enterros de todos os policiais brasileiros mortos. Assim, não teria tempo para "articular" cada vez mais espaço para seu partido no re-governo de Dilma (sabemos o resultado dessas "articulações", não é?) e ainda poderia copiar as frases de efeito de Biden, do tipo "quando a bala do assassino alvejou dois policiais, ela atingiu a cidade e tocou a alma de uma nação inteira".
Ao que parece, a "alma brasileira" não é tão facilmente "tocada". Tudo indica que precisa de muitos outros disparos para sensibilizar-se. 
Ah, sim. Biden disse também que "a polícia de Nova York é a melhor do mundo". Essa parte, claro, Temer não poderia copiar.