E como os brados no Mundo podem tanto, bem é que
bradem alguma vez os pregadores, bem é que gritem
Pe. Antonio Vieira

quarta-feira, 17 de abril de 2013

PARE: Veja, sinta e ouça esta foto.

Em algum ponto do Tocantins, em uma manhã qualquer, Ela construiu uma sinfonia. 

Sentada no prosaico, no que lhe é ordinário, no comum que o Mundo é capaz de proporcionar, Ela está ali, posta ao sol, entregue ao seu fazer, inundada pela luz do amanhecer, Ela é capaz de, no flagrante do artista, transmutar-se, transcender, elevar-se à categoria de ícone de um tempo fora do tempo.

Pare agora.

Reflete junto comigo sobre a força da imagem.

Deixa que a beleza da imagem ocupe a centralidade do teu pensamento.

Apura a visão e, garanto, serás incapaz de ver a pescadora, a despossuída, a sem-terra, a sem eira nem beira.

Com atenção e lirismo, verás a Senhora das Águas, uma espécie de Boiúna, Mãe D´água, Oxum, Iara, imune às correntes do Rio ou do Tempo. Imortal.

E se aguçares a percepção, caro amigo, sentirás o vento que toca suave e de forma quase reverencial a aba do chapéu da Deusa. Sensações, portanto, não te faltarão.

Que achas do suave balanço da canoa na qual o equilíbrio da vida – minha, tua, dela - sempre tão precário, é ainda mais necessário?

Que me dizes da incerteza, que move os fortes e os crentes, contida no ato de lançar a rede às águas turvas?

E se podes sentir, o que te impede de ouvir esta imagem?

Sim, ouvi-la! Pois que ela tem sua própria música! Os acordes primeiros do Allegro são longos, suaves, em perfeito compasso com a luz da manhã que vai-se enxerindo, preenchendo tudo, roubando as sombras que a noite deixou.

Haverá, o Andante presto ma no tropo, que emula as batidas do coração da Deusa, nossa Musa nesta crônica mal-ajambrada.

Haverá, por fim o gran finale, majestoso, apoteótico, hiperbólico. E assim se cantará o retorno da Deusa, vitoriosa sobre a força das águas, com seu caçuá fornido por seis ou sete peixinhos.

Ou poderás, quem sabe, com tato e jeito, pedindo a benção, introduzir tua própria trilha sonora.

Exercita tua alma e tenta responder que música tocarias para este mundo que juntos construímos, para este fragmento de vida capturada na fotografia sublime.

E para que serve todo este exercício?

Serve apenas para lembrar a todos nós, néscios e parvos, orgulhosos de nossas grifes, tecnologias e carros velozes, que fora do nosso mundo banal, longe da desesperada corrida que nos leva do nada para lugar algum, para além da sensação de conforto e segurança que o cotidiano nos proporciona, para além de guerras, explosões ou as frustrações do cotidiano, existe um outro mundo, muito maior e mais bonito, que às vezes é possível vislumbrar pela lente atenta de um artista.

A FOTO QUE ILUSTRA ESTE POST É DE AUTORIA DE HÉLDER MESSIAHS, UM DOS MELHORES FOTÓGRAFOS DO PARÁ E, PORQUE NÃO, DO BRASIL, COLHIDA ÀS MARGENS DO TOCANTINS, ENQUANTO PREPARA-SE PARA ACOMPANHAR A DESCIDA DA BALSA DE BURITI QUE REVIVERÁ A VIAGEM DOS PIONEIROS DESDE CAROLINA, NO MARANHÃO, ATÉ ESTAS ABENÇOADAS BARRANCAS, PARA FUNDAR MARABÁ. AQUI NO BLOG, A PARTIR DE AMANHÃ, VAMOS CONTAR UM POUCO DESTA PEQUENA ODISSEIA. FAREMOS UMA ESPÉCIE DE "DIÁRIO DE BORDO", COM AS FOTOS - SEMPRE DESLUMBRANTES - DE HÉLDER E OS TEXTOS DESTE ESCRIBA.