E como os brados no Mundo podem tanto, bem é que
bradem alguma vez os pregadores, bem é que gritem
Pe. Antonio Vieira

quarta-feira, 6 de março de 2013

Em "A voz e a vez dos excluídos", João Salame afirma que "excluídos" podem "tornar pó" cúpulas partidárias tradicionais.

Há tempos João Salame Neto, prefeito de Marabá, deixara que o político em que se tornou ocupasse um pouco o lugar do jornalista que sempre foi. Entendo que a política lucrou, ganhando um orador qualificado e articulador competente. Mas, o jornalismo acabou perdendo um dos seus melhores textos. Hoje (6), vejo no blog do amigo Hiroshi Bogea que o jornalista, ainda que momentaneamente, levou a melhor sobre o político e João Salame assina um texto que tem potencial para estabelecer uma discussão saudável entre todos os segmentos partidários.
Em A voz e a vez dos excluídos, João traça o cenário histórico no qual desenvolveu-se o lulo-petismo, presente na história e no cotidiano dos brasileiros desde a década de 80 do século XX, e aponta para a necessidade de todos repensarmos as formas de interação do Estado - em seu sentido mais amplo - com os setores da, digamos, "sociedade desorganizada". João demonstra, em suas conclusões, como mais uma vez é Lula quem tem a capacidade de perceber que as cúpulas partidárias e os grupos de pressão da sociedade "organizada" em sindicatos, ong's e outros que tais, não podem ser os únicos interlocutores do Estado brasileiro. É preciso que as práticas políticas e as políticas públicas alcancem aqueles setores que, sem um sindicato para chamar de seu, carecem do apoio governamental para crescer, produzir, viver.
Caso as elites partidárias não percebem esta necessidade serão, para usar uma expressão cara às esquerdas dos 70, "levadas de roldão" pelos "desorganizados". A forma como João Salame encerra seu texto reflete bem este grito de alerta. "Eu, em crise com o meu partido, que sempre apostei no coletivo, confesso que me sinto um pouco lulista. Ele está sendo uma voz quase solitária em defesa dos excluídos. A cada dia eles se multiplicam, com a internet se comunicam e em pouco tempo vão tornar pó as cúpulas partidárias, as estruturas sindicais e a atual forma de representação política, que completa duzentos anos sem se dar conta que o mundo mudou", encerra Salame.
Leia a seguir a íntegra do texto de João Salame. É longo, mas necessário.

A voz e a vez dos excluídos
(*) João Salame

Muitos críticos podem dizer que o PT se transformou e, em alguns casos, para pior. Que se rendeu a velhas práticas da política. Há muito de verdade nisso.
Mas o partido não consegue ser superado por outras organizações de esquerda porque mantém ainda sólido vínculo com a maioria da população deserdada das políticas públicas.
Não gosto de personalizar as coisas, aposto muito nas ações coletivas, mas essa façanha se deve muito a intuição política de uma personalidade: Lula. Ele mesmo. Tão defenestrado por seus adversários nos últimos dias. Mas cada vez mais amado pelas parcelas menos favorecidas da sociedade.
No início da década de 80, Lula entendeu que a velha forma de representação política da esquerda, representada pelo partido comunista, havia falido. Que a concepção autoritária de partido não dava mais conta dos anseios da sociedade. Identificou que era hora de colocar as grandes massas como agente político e comandou a organização do setor de vanguarda do operariado, através do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo, berço do sindicalismo combativo.
Viu mais longe: enxergou a necessidade de estimular a participação política dos deserdados, dos que não tinham vaga nos partidos para se candidatar e lançou-se na organização do Partido dos Trabalhadores. Estimulou ainda instrumentos como o orçamento participativo, formação de conselhos e outras formas de representação popular. Em pouco tempo, nas Câmaras Municipais, Assembleias Legislativas e no Congresso Nacional começaram a aparecer trabalhadores rurais, operários, domésticas, semianalfabetos, negros, homossexuais e outros segmentos discriminados da sociedade.
O sindicalismo se fortaleceu. O PT conquistou o poder central. As coisas começaram a mudar. Em muitos casos para melhor. Em outros para pior. O chamado mensalão é apenas um produto de uma mudança de postura em relação ao status quo. O sindicalismo e o movimento estudantil perderam autonomia e passaram a representar corporações a cada dia mais interessadas em sua autopreservação e sem nenhum compromisso com as causas maiores da sociedade.
O movimento de professores, do funcionalismo, dos trabalhadores rurais e de diversos segmentos organizados descolaram-se da sociedade. Ao contrário, passaram a brigar contra ela exigindo cada vez mais recursos públicos em benefício próprio, e deixando de lado o sentimento de generosidade para com os setores excluídos.
Para deter um pouco essa pressão cada vez maior por nacos do dinheiro público editou-se a Lei de Responsabilidade Fiscal, uma cria do PSDB, mas que logo o PT e todos os democratas entenderam como instrumento correto para deter a completa sangria dos recursos públicos. Talvez esteja na hora de debatermos não o máximo que deve ser gasto com o funcionalismo, mas o mínimo que deve ser gasto dos recursos públicos com a sociedade através de políticas públicas.
De outro lado, os partidos políticos e suas lideranças, representando essa “nova organização” da sociedade, também aumentaram seu apetite pela autopreservação. A consequência foi o aumento das verbas parlamentares, do empreguismo, dos privilégios, das benesses. No Judiciário ocorreu o mesmo movimento.
Lideranças políticas e movimento social organizado se deram às mãos para comandar o orçamento público. A briga é para saber quais partidos e seus aliados comandam o botim. Dirigentes partidários, prefeitos, vereadores, deputados, senadores, governadores, secretários, ministros, o poder judiciário, o funcionalismo público e meia dúzia de empresários representam menos de 3% da população no Brasil, nos Estados e nos Municípios. No entanto, na maioria das vezes, abocanham mais de 90% dos recursos públicos.
Não sobra dinheiro pra melhorar a saúde, a educação, a infraestrutura das cidades. Uma verdadeira casta que se consolidou e sangra os recursos públicos. Com raras e honrosas exceções.
Quando a essa casta se agregam algumas categorias organizadas da sociedade o controle sobre o orçamento é quase total. Não sobra praticamente nada para a grande massa de excluídos. Daí o PT, em muitas cidades, já começar a ser enxergado como igual aos demais. Ter começado a perder sua natureza transformadora, por ter se rendido a essas corporações.
Como o governo federal tem mais recursos que os estaduais e municipais, existe no orçamento da União uma margem um pouco maior de manobra para conceder um pouco mais aos excluídos. Isso mantém a fleuma do PT.
Lula entendeu na década de 80 que a vez era do movimento social organizado. O PT “bombou”. De uns tempos para cá ele percebeu que é a vez dos excluídos. Consolidou o bolsa-família como política compensatória para os segmentos mais fragilizados e desorganizados da sociedade e empreendeu várias outras políticas para esses setores.
Ainda é pouco.
Na última quinta-feira participei do 14º. Encontro Nacional do Morhan – o movimento que combate o preconceito e luta em defesa dos hansenianos. Tive a honra de ser um dos 35 personagens homenageados pelo movimento.
Lula estava lá.
No seu discurso foi na ferida: “os empresários, os professores, o pessoal da cultura, os sindicatos, conseguem muito do que querem junto ao governo. E os excluídos? Tudo pra eles é difícil. Nós temos que inverter essa lógica e mostrar que pra eles tudo é possível”, falou.
Foi ovacionado.
Foi emocionante.
Enquanto boa parte da esquerda, inclusive a que se diz revolucionária, continua presa aos velhos clichês, continua aprisionada pelo corporativismo de boa parte dos líderes sindicais e da chamada sociedade civil organizada, Lula percebeu, ainda que intuitivamente, que o Estado precisa distribuir mais seus recursos para os deserdados.
Que todo o dinheiro não pode ser gasto apenas com os setores mais organizados da sociedade. Por isso continua amado pelo seu povo.
Na sua sensibilidade está a possibilidade do PT se reciclar novamente, ainda que o partido possa fazer essa transformação sem ter a compreensão teórica da necessidade real dessa mudança.
Não quero com esse texto me colocar contra os movimentos organizados da sociedade e categorias importantes como a dos professores, dos trabalhadores rurais e do funcionalismo. Eles são muito importantes.
Sempre respeitei e defendi a luta organizada dos trabalhadores.
Ao contrário, avalio que os deserdados é que precisam se organizar. Eles são a maioria.
O que critico é o fato de que a maioria da vanguarda desses movimentos perdeu a sensibilidade, luta apenas por suas corporações e se esquece da maioria da sociedade. Defende os excluídos apenas na retórica. Quando se junta a políticos apenas interessados em seus privilégios, a sociedade paga um preço alto.
“Igualdade, liberdade e fraternidade”. Nunca, como agora, essas bandeiras da gloriosa Revolução Francesa foram tão atuais.
Eu, em crise com o meu partido, que sempre apostei no coletivo, confesso que me sinto um pouco lulista. Ele está sendo uma voz quase solitária em defesa dos excluídos. A cada dia eles se multiplicam, com a internet se comunicam e em pouco tempo vão tornar pó as cúpulas partidárias, as estruturas sindicais e a atual forma de representação política, que completa duzentos anos sem se dar conta que o mundo mudou.
(*) João Salame é jornalista e prefeito de Marabá