E como os brados no Mundo podem tanto, bem é que
bradem alguma vez os pregadores, bem é que gritem
Pe. Antonio Vieira

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Bento será o primeiro Papa a renunciar em mais de 700 anos. Sucessor terá desafios enormes à frente da Igreja

Causou compreensível impacto o anúncio feito hoje (11) através do porta-voz da Cúria Romana que, em 28 de fevereiro deste ano, Bento XVI, Cardeal Ratzinger, renunciará ao pontificado iniciado em abril de 2005. Seu reinado como Príncipe da Igreja começou cercado de grande expectativa. Após João Paulo II, quando a Igreja representou um forte ponto de apoio na derrocada do comunismo, principalmente no Leste da Europa mas, ao mesmo tempo foi torpedeada por inúmeras distorções doutrinárias.
Caberia ao novo papa enfrentar o avanço do maometismo - mesmo no Ocidente, além das constantes denúncias que envolvem padres e freiras com crimes sexuais, entre eles a pedofilia. Bento XVI já havia afirmado que o grande desafio da Igreja era confrontar seus "inimigos internos". Em um balanço rápido, fica parecendo que Bento XVI acabou fracassando nos dois aspectos. A crença muçulmana continua avançando, particularmente, entre os estratos mais pobres dos países do hemisfério norte e a crise moral vivida pela Igreja deixou chagas profundas que ainda estão longe da cicatrização. O encolhimento do rebanho e a aparição de doutrinas heterodoxas no meio da Igreja apenas pioram a situação geral.
Aos 85 anos, Bento XVI será o primeiro papa a renunciar desde 1294, quando Celestino V, eremita feito Papa após a morte de Nicolau IV, decidiu regressar a sua comunidade. Acabou impedido de juntar-se a outros eremitas por seu sucessor, o papa Bonifácio VIII, que determinou sua clausura por medo de que a existência de dois papas acabasse dando origem a outro cisma na cristandade, justamente quando a Igreja mobilizava a Europa para confrontar o Islã e libertar a Terra Santa em mais uma Cruzada. Celestino morreu dois anos depois, provavelmente envenenado.
O destino de Bento XVI será bem menos traumático. Deverá ficar na residência de verão da Santa Sé, em Castel Gandolfo.
Apesar de ser tão rara, a renúncia tem previsão legal. A possibilidade de renúncia de um papa já havia sido assinalada por vários Papas do século XX, e está contida no cânone 332.2 do Código Canônico, conhecido como Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis, devidamente aditada pela Carta Apostólica de Motu Próprio Ad Tuendam Fidem, de 18 de maio de 1998, pelo Papa João Paulo II, que a previu expressamente. Ele não o fez, apesar de um longo período de doença.
Joseph Ratzinger já havia indicado em seu livro Luz do Mundo, que um Papa "tem o direito e, dependendo das circunstâncias, o dever de se retirar" se sentir que a força "física, psicológica e espiritual" lhe escapa.
Grande doutrinador, Bento XVI precisará ser sucedido por um pastor capaz de reunir novamente o rebanho e apresentar respostas às demandas modernas e outras nem tanto, como o fim do celibato do clero, o casamento de homossexuais e a intolerância religiosa direcionada aos cristãos em todo o Mundo.
A expectativa é que até abril, durante a Páscoa, tenhamos um novo Papa. Até lá, a partir de 28 de fevereiro, teremos a Sé Vacante. A partir da renúncia, selos e brasão de Bento XVI serão quebrados e o camerlengo, uma espécie de mordomo do Papa, responderá pela parte administrativa da Santa Sé até que um novo Papa seja escolhido pelos cardeais com até 80 anos, para dirigir os rumos da Igreja, esta nau vetusta, mas que ainda simboliza o que de melhor a Fé foi capaz de produzir. Todos os católicos só podemos esperar que o Espírito Santo guie os príncipes da Igreja de Cristo rumo a uma escolha feliz.