E como os brados no Mundo podem tanto, bem é que
bradem alguma vez os pregadores, bem é que gritem
Pe. Antonio Vieira

domingo, 24 de junho de 2012

"Brasilguaios" apelam à Dilma pelo reconhecimento do novo governo do Paraguai. "Brasil não intervirá em questões internas", diz assessor da Presidência

Representantes dos cerca de 6 mil brasiguaios (agricultores e produtores rurais brasileiros que moram no Paraguai) vão apelar às autoridades do Brasil para que aceitem o governo do novo presidente paraguaio, Federico Franco. Inicialmente, os brasiguaios pedirão ao cônsul brasileiro em Ciudad del Este, embaixador Flávio Roberto Bonzanini, que encaminhe o pedido de reconhecimento de Franco à presidenta Dilma Rousseff.
Depois, amanhã (25), um grupo pretende vir a Assunção para ratificar o apelo na Embaixada do Brasil. A ideia dos brasiguaios é mostrar ao governo Dilma que Franco sinalizou que seguirá a determinação da Justiça, permitindo que eles permaneçam em suas terras, e tenham segurança para continuar trabalhando. Os brasiguaios criticam a gestão do ex-presidente Fernando Lugo, acusando-o de falta de apoio.
“Estamos muito preocupados com a posição do Brasil em relação ao novo governo. O presidente Franco disse que vai seguir a lei e garantir a segurança necessária aos cidadãos de origem brasileira que vivem no Paraguai”, disse o presidente da Coordenadoria Agrícola do Paraguai, Héctor Cristalda, que é paraguaio.Héctor Cristalda disse que o sindicato que preside tem vários integrantes e sócios de origem brasileira. Segundo ele, os brasileiros proprietários de terras no Paraguai sofreram perseguição nos últimos anos e ficaram impedidos de trabalhar. O produtor rural acrescentou ainda que há um receio no campo sobre o aumento da violência, daí o discurso em defesa da paz das autoridades paraguaias e religiosas.
“Há um cenário de violência. Os carperos [sem-terra paraguaios] estão armados e não aceitam como legítimos os locais onde estão os brasileiros. A tensão é imensa”, disse Cristalda. “Queremos dizer que basta de perseguição e que temos de reagir. É preciso cumprir a lei e dar segurança para quem quer trabalhar”, completou.
O novo presidente Federico Franco chamou os brasiguaios de “cidadãos paraguaios” e o ministro das Relações Exteriores do Paraguai, José Félix Fernández Estigarribia, também prometeu dar atenção ao tema. No entanto, ele lembrou que a questão agrária no Paraguai é delicada.
O assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, descartou, a possibilidade de o Brasil e os demais países do Mercosul (Argentina e Uruguai) intervirem em questões internas do Paraguai. Mas Garcia reiterou as críticas do governo brasileiro à forma como foi conduzido o processo de impeachment do presidente Fernando Lugo, que na última sexta-feira (22) foi substituído pelo seu vice, Federico Franco.
Em entrevista à Agência Brasil, Marco Aurélio Garcia rechaçou qualquer atitude que sinalize uma tentativa de intervenção em questões internas paraguaias. Ele reforçou que isso não ocorrerá nem por parte do governo do Brasil, nem do Mercosul.
O Brasil assumirá no fim da próxima semana, em reunião de cúpula, na Argentina, a presidência temporária do bloco, por seis meses, e a pauta principal da reunião deverá ser o impeachment de Lugo. Da parte brasileira, o assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência disse que o governo federal vai agir “sintonizado com as medidas adotadas pelo Mercosul”.
Garcia considera “impossível” qualquer reversão do que foi decidido pelo Congresso paraguaio. Para ele, qualquer ação nesse sentido teria que ser tomada “por ações internas” do país. Ele, no entanto, reiterou a postura do governo brasileiro de avaliar o impeachment de Lugo como um “rito sumário” e sem qualquer chance de defesa.
O embaixador do Brasil no Paraguai, Eduardo Santos, chega amanhã (25) a Brasília, quando se reunirá com o chanceler Antonio Patriota para fazer um relato da situação no política no país vizinho. “Em si a convocação do embaixador pelo governo já é um sinal de desconforto com o que aconteceu”, destacou Marco Aurélio Garcia.
O assessor especial acrescentou que, neste primeiro momento, os países integrantes do Mercosul devem chamar seus embaixadores para reunirem informações. A partir daí, a segunda etapa será decidir qual atitude será adotada.
Segundo ele, o momento é para avaliar a situação e “deixar essa crise no Paraguai decantar para ver como vai ficar”. Em um primeiro momento, o embaixador Eduardo Santos fará os relatos a Patriota. Caso a presidenta Dilma Rousseff considere conveniente ter uma conversa com Santos, poderá chamá-lo, disse Marco Aurélio Garcia.