E como os brados no Mundo podem tanto, bem é que
bradem alguma vez os pregadores, bem é que gritem
Pe. Antonio Vieira

domingo, 24 de junho de 2012

"Bolivarianos" não defendem o Direito; defendem a ideologia. E Dilma está caindo na esparrela...

Venho acompanhando com interesse a discussão sobre a decisão do Congresso do Paraguai que afastou Fernando Lugo da presidência do país.
Confesso que do Paraguai sabia apenas que é a origem de 37% de todo contrabando que entra no Brasil; que era um notório saco de pancadas da Seleção, que meteu-se em uma guerra desastrada no século XIX contra Brasil e Argentina e que é o país natal da gostosíssima Larissa Riquelme.
Agora sei que trata-se de uma economia nanica, algo em torno de US$ 16 bilhões ou o equivalente ao PIB do Estado do Pará, com um terço da área deste, onde moram pouco mais de 6,5 milhões de pessoas e que tirando sua parte na hidrelétrica de Itaipu, tem pouco ou quase nada a oferecer.
Então, por que tanta gritaria em torno de uma decisão intestina tomada pelo Legislativo do Paraguai?

Até aqui não vi um miserável argumento jurídico que justifique a alegação de "golpe de estado".
Consideremos que cada país tem como atributo inalienável a soberania. Dela decorre, por óbvio, a prerrogativa de criar leis e processos legais que lhes sejam convenientes.
Diga-se que este álibi vem sendo usado à larga pelos ditos "governos bolivarianos" que assolam a Latinoamerica.
Países como Venezuela, Bolívia, Nicarágua, Costa Rica, Argentina e mais recentemente o Uruguai aprovam leis que alteram profundamente os mecanismos de eleição de seus mandatários e alguns utilizam mecanismos claramente anti-liberais como a expropriação de bens pertencentes à empresas nacionais e estrangeiras.
Interessante como destas medidas esdrúxulas não decorra qualquer gritaria.
Contudo, quando representantes legitimamente eleitos decidem, utilizando as leis de seus países, pasmem, fazer cumprir a Lei, logo a patrulha bolivariana, aqui e alhures, é acionada para tentar tornar a decisão ilegítima, uma vez que não a podem tornar ilegal.
Foi assim quando o chapeludo Zellaya resolveu dar um golpe em Honduras e está sendo assim em relação à decisão do Congresso paraguaio.
Os brasileiros, então, precisamos ponderar bastante antes de aderir à gritaria do bolivarianismo de Chávez e corriola.
Sendo "golpe" a deposição de Lugo, haveremos de concordar que foi "golpe" a deposição de Collor. A situação brasileira, assim, parece ainda mais grave, uma vez que Collor restou absolvido pelo STF!
Collor foi deposto por um julgamento político, realizado em um casa legislativa com total legitimidade.
A menos que os defensores de Lugo apresentem provas de vícios insanáveis no processo, trata-se de um julgamento com a mesma matriz e, por consequência, com a mesma legitimidade.
Pode-se questionar as regras estabelecidas pelo Paraguai?
Até onde consigo ver, a resposta é não.
Chego à conclusão que não é de direito que falam os "bolivarianos". É de ideologia que tratam aqui.
Funcionaria mais ou menos assim: Sendo um governo "bolivariano", vale tudo; não sendo "bolivariano" não pode nada, nem mesmo cumprir a Lei.
Ao que parece Dilma entrou na onda do "bolivarianismo". Uma pena.
A nota expedida agora à noite pelo Itamaraty informa que o embaixador Eduardo dos Santos será "convocado para consultas". Vai na contramão de países como Espanha, Vaticano e Alemanha que já reconheceram o novo governo. Seriam esses países defensores de "golpistas"?
Ao contrário do que esperavam os bolivarianos, o dia foi tranquilo no Paraguai, sem manifestações ou mártires. Deve ser frustrante para eles a constatação que o "povo" é muito menos "revolucionário" do que esses esquerdistas o idealizam.
Na próxima semana, na Argentina, haverá reunião do Mercosul. Federico Franco já disse que pretende conversar com Dilma durante o encontro. É bom que isso ocorra. Até lá, Dilma precisa calibrar sua política externa e mostrar que o Brasil, única potência regional, tem mais juízo que os vizinhos "bolivarianos".
E tomara que esta crise acabe logo para que o Paraguai volte a ser lembrado como a terra natal da linda Larissa.
Leia a seguir a íntegra da nota do governo brasileiro.
Situação no Paraguai
O Governo brasileiro condena o rito sumário de destituição do mandatário do Paraguai, decidido em 22 de junho último, em que não foi adequadamente assegurado o amplo direito de defesa. O Brasil considera que o procedimento adotado compromete pilar fundamental da democracia, condição essencial para a integração regional.
Medidas a serem aplicadas em decorrência da ruptura da ordem democrática no Paraguai estão sendo avaliadas com os parceiros do MERCOSUL e da UNASUL, à luz de compromissos no âmbito regional com a democracia.
O Governo brasileiro ressalta que não tomará medidas que prejudiquem o povo irmão do Paraguai.
O Brasil reafirma que a democracia foi conquistada com esforço e sacrifício pelos países da região e deve ser defendida sem hesitação.
O Embaixador do Brasil em Assunção está sendo chamado a Brasília para consultas.