E como os brados no Mundo podem tanto, bem é que
bradem alguma vez os pregadores, bem é que gritem
Pe. Antonio Vieira

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Tragédia na Alça Viária - Em meio a comoção, Tailândia homenageia seus mortos. Enterros ocorrem hoje.



O município de Tailândia, a 260 quilômetros de Belém, se despediu ontem à tarde dos nove mortos do acidente entre um micro-ônibus e uma carreta no KM 20 da Alça Viária, ocorrido na na tarde da última terça-feira (24). Os corpos liberados pelo Instituto Médico Legal (IML) chegaram à cidade por volta de 18h15 de ontem. Oito famílias preferiram não fazer uma cerimônia coletiva e velaram os corpos nas próprias casas. Somente o corpo da professora Raimunda Brilhante, de 63 anos, teve uma cerimônia pública no ginásio esportivo Werner Kronbauer, que desde o início da tarde estava lotado e repleto de cartazes com homenagens e despedidas. A Prefeitura decretou luto oficial de três dias na cidade. Comércios e residências exibiam faixas e cartazes pretos em sinal de luto.
A preparação para o velório demorou horas depois da chegada dos corpos às duas funerárias locais, pois alguns estavam muito mutilados. O enterro será hoje. 
Três corpos serão enterrados fora de Tailândia. O corpo da professora Raimunda Brilhante seguirá para o município de Peixe-Boi, próximo de Salinópolis; Carla Oliveira Araújo, 34 anos, e a filha Ingrid Oliveira Reis, de 11, serão sepultadas na localidade de Quatro-Bocas, no município de Tomé-Açu.
A filha da professora, a auxiliar administrativa Aline Michele da Silva, de 23 anos, disse que o corpo da mãe seguiria para Peixe-Boi logo após a homenagem no ginásio, ainda de madrugada, com previsão de chegada às 6h naquela cidade do nordeste paraense. A família mora em Tailândia há seis anos. Mesmo em pouco tempo, a professora conquistou diversas pessoas ao dar aulas na escola municipal Ezequiel Alves dos Ramos. Quanto a perdoar o condutor do micro-ônibus, Carlos Alberto Louzeiro da Silva, de 41 anos, que assumiu a culpa, ela disse não conseguir. "Eu perdi minha mãe. Não tem como pensar em perdão, pois a culpa foi dele. Vamos aguardar a perícia dizer o que ocorreu de verdade. Ela estava acompanhando meu padrasto, Manoel Raimundo Pereira, que ia fazer uma cirurgia na vista e tinha ido ao Pronto Socorro Municipal de Belém. Já teve alta", disse sem saber como reagir.
O carvoeiro Antônio José da Silva, de 30 anos, é irmão de Antônio Silva do Nascimento, que acompanhava o filho Wemerson da Silva Nascimento, de oito anos. O menino sobreviveu, mas o pai morreu. Inconsolável, o irmão mal tinha forças para falar. "Estávamos em Belém, mas moramos todos em Tailândia. Éramos cinco irmãos, sendo duas mulheres. Nem sabemos ainda sobre o enterro. Estamos todos muito abalados", comentou.
A assesora especial da Secretaria de Trabalho, Promoção e Assistência Social de Tailândia, Socorro Lima, disse que haviam dois ônibus em viagem. O veículo que conduziu os pacientes de hemodiálise chegou normalmente à cidade. Já o micro-ônibus que sofreu o acidente tinha 22 pacientes a bordo que iam fazer Tratamento Fora do Domicílio (TFD) e se dirigiam aos hospitais Ofir Loyola (HOL) e João de Barros Barreto (HUJBB). "A prefeitura está arcando com todas as despesas funerárias e assistência médica. É doloroso porque é nosso povo e quase todo mundo se conhece. É a primeira vez que algo assim acontece", comentou.
No local do acidente, quilômetro 20 da Alça Viária, próximo da comunidade Estrela da Manhã, ainda restam os indícios do acidente. No acostamento há caixas com roupas e calçados, pedaços de madeira das bobinas, restos de entranhas e massa encefálica e uma grande mancha de sangue seca no asfalto.
O pastor Pedro Pastano dos Santos, de 58 anos, mora na comunidade Estrela da Manhã e conta que alguns veículos apenas passam em velocidade mais baixa porque querem ver o local do acidente. Ele disse que os moradores vão pedir redutores de velocidade nos perímetros urbanos. O pastor conta ainda que viu sete corpos empilhados no local onde funciona uma parada de ônibus. Os moradores ajudaram na remoção dos cadáveres. "Ficamos assustados e o acidente poderia ter sido muito pior, pois o micro-ônibus estava rápido na chuva. Se tivesse capotado, poderia ter batido as pessoas que estavam na parada. Estamos fazendo orações na igreja por todas as vítimas. Nós também sentimos uma dor por essas perdas", comentou.
O tenente Jandyr Araújo, da Polícia Rodoviária Estadual (PRE), acredita, com base em relatos dos sobreviventes, que o acidente foi causado por imprudência do condutor do micro-ônibus. Ele acrescenta que o motorista teria tido uma discussão com os pacientes pela demora para retornar a Tailândia. O estresse e a pressa podem ter contribuído para o erro cometido. "Segundo os relatos que colhemos dos sobreviventes, houve essa briga que o deixou irritado e ele estava fazendo manobras perigosas e dirigindo em alta velocidade. O condutor precisa se controlar ao volante. Nas nossas rondas sempre tentamos inibir essas manobras", explicou o tenente.
Jandyr concluiu dizendo que as rondas continuam e o incidente em nada mudou o comportamento dos condutores e nem dos procedimentos. As carcaças dos veículos permanecem na sede da PRE, na Alça Viária.
A secretária municipal de Saúde de Tailândia, Rosângela Belich, reforçou que os motoristas de condução dos pacientes são treinados para dirigir com cuidado pois são pacientes. "Não há explicação para pressa. O funcionário já foi afastado e um processo administrativo será aberto por nossa assessoria jurídica", afirmou.
A imprudência apontada pela PRE se tornou mais arriscada pelo trecho em que o acidente ocorreu. Do quilômetro 17 ao 29, não há sinalização horizontal (divisão de pista e acostamento). Do 17 ao 22, o asfalto é recente, que ainda solta algumas resinas e, somadas à chuva na tarde de terça, se tornam escorregadias e perigosas para quem está em alta velocidade. No quilômetro 20, onde o acidente ocorreu, há um declive que pode ter obstruído a visão do condutor do micro-ônibus.
Prefeitura divulga lista de mortos
NOMES DOS MORTOS
Eunice Tavares da Silva, 32 anos
Maria Benedita, 63 anos
Francisco Gerisvaldo, 38 anos
Raimunda Brilhante, 63 anos
Roseny de Souza Santos, 55 anos
Antônio Silva do Nascimento, 31 anos
Carla Oliveira, 34 anos
Ingrid Oliveira Reis, 11 anos
Breno Ribeiro de Melo, 15 anos

PACIENTES QUE TIVERAM ALTA
Carlos Otávio Tavares da Silva – condutor da carreta
Ismael Gonçalves Pereira
Eva dos Santos Bento
Antônia Braz Santiago
Erismar de Souza Chaves
Wemerson da Silva Nascimento
Manoel Raimundo Pereira

SEGUEM INTERNADOS NO H. METROPOLITANO
Daniel Barbosa Barbalho
Danila Mendonça Barbalho
Rozilda de Araújo (dada como desconhecida)
Vitor Antônio Ramos (3 anos)
Francisco de Assis Araújo da Silva
Eliane Slongo
Antônia Linhares
Fonte: HOSPITAL METROPOLITANO DE URGÊNCIA E EMERGÊNCIA E PREFEITURA MUNICIPAL DE TAILÂNDIA